Por que a campanha de Bolsonaro deu certo? Certamente houve aqui uma quebra de paradigma: a internet foi mais eficiente na comunicação com o eleitor do que os meios mais antigos. O candidato que dispunha de mais tempo de TV e rádio, Alckmin, teve votação pífia. Bolsonaro com poucos segundos desse tempo ganha as eleições.

PT tinha um bom tempo de rádio e TV e uma presença expressiva na internet. E tinha três fatores que nenhum candidato teve. Em primeiro lugar, e disparado o mais significativo: sua militância. Em segundo lugar o líder mais popular da nossa história: Lula. E em terceiro lugar um legado expressivo de melhoria das condições de vida do povo. Enquanto esteve na disputa Lulaera o líder disparado com chances de ganhar no primeiro turno. E com a saída de Lula em poucos dias Haddad assume o segundo lugar na disputa e vai assim até o final, passando para o segundo turno com mais do que o dobro da votação do terceiro colocado.

A questão central aqui não é o uso de ferramentas de comunicação. O WhatsApp não é o satanás dessa história, assim como a TV e o rádio nunca foram. Aconteceu nas eleições o que já vem acontecendo no resto do mundo: há cada vez mais alternativas de meios de comunicação. Muitas pessoas, principalmente jovens, nem veem mais TV aberta. A TV não é mais o centro da sala nas casas. Cada vez mais disputa espaço com os computadores e mais ainda com os celulares. O cenário dos meios de comunicação é cada vez mais híbrido.

O fato novo é que a informação, mesmo a jornalística, não passa mais por um cenário de intermediação, por protocolos jornalísticos principalmente. Há milhares de blogs e de youtubers produzindo e divulgando informações que, mesmo os que são conduzidos por jornalistas profissionais, não estão submetidos às regras das redações. Nesse ambiente é difícil discernir fato que é apurado da opinião de quem escreve. Com isso acreditar ou não no que se vê divulgado passa a ser uma questão de a informação estar ou não aderente às crenças individuais, sem a chancela da mídia tradicional ou da mídia alternativa e mais responsável com o conteúdo que publica. Mas as crenças pessoais não são tão individuais assim. Elas são resultado do contexto social em que se vive. E é nesse contexto e espaço social que as classes disputam. Ou seja, em última instância é a luta de classes que permeia, como em toda a nossa vida social, essa disputa. E é nessa esfera que o embate eleitoral precisa ser avaliado. Não há ferramenta matadora. Aquela que é invencível em qualquer situação e que irá contribuir decisivamente nas próximas eleições. Isso não significa que podemos desprezar ou relegar ao segundo plano a internet. O cenário de comunicação é definitivamente híbrido. Os grandes e tradicionais meios de comunicação, jornal, tv, rádio, seguirão existindo. Mas com a concorrência de um meio sem intermediação que é a internet. Por isso é importante dominar esse novo espaço desafiador.

Em um cenário pós lava jato a estratégia de Bolsonaro teve todo espaço para sair vitoriosa. Ele também explora fortemente o conservadorismo moral da maioria do povo brasileiro e a falência da segurança pública. Com o conservadorismo ele atrai as lideranças evangélicas, especialmente das igrejas neopentecostais, e carrega ainda mais de preconceitos o seu discurso, em cima da farta distribuição de notícias falsas. A população assustada com o crescimento da criminalidade e com a falta de segurança passa a ver com bons olhos o discurso violento do tipo “bandido bom é bandido morto” e os ataques as políticas de direitos humanos, que são desconstruídas com as falsas notícias de que somente os bandidos são protegidos pelas ações em defesa desses direitos. As periferias e comunidades pobres das grandes cidades estão dominadas e controladas pelo crime organizado. O Estado deixa de cumprir a função de proteger dos criminosos as famílias. E nas áreas controladas por facções e milícias não tem condições de manter operando serviços básicos para a população.

As ferramentas tecnológicas utilizadas não foram uma bala de prata. Elas foram usadas com domínio e eficiência técnicas, comunicaram as mensagens em uma rede que foi formada ao longo de quase 4 anos e que encontraram parte da classe trabalhadora e do povo em um nível de insatisfação e desesperança muito grande, e que não viam mais nem no PT nem nas instituições capacidade de agir para atenuar seu sofrimento e suprir suas necessidades básicas. A campanha de Bolsonaro foi aluna exemplar dos ensinamentos das guerras híbridas e assimétricas. Fez uma leitura correta do estágio da luta de classes e usou as ferramentas com que podia contar: a internet, a figura e o discurso enlouquecidos de Bolsonaro. Resumindo, no popular, quem não tem cão caça com gato. E o gato foi de uma eficácia e de uma eficiência exemplares.

O campo do PT por sua vez acertou em alguns aspectos fundamentais, como ter levado até o limite a candidatura de Lula. Mas errou em alguns, que podem não ter sido a razão da derrota, mas podem ter custado muitos votos. Do ponto de vista da internet o maior erro foi a falta de um trabalho que deveria ter começado logo após as eleições de 2016 ou até mesmo antes. Quando o trabalho da campanha de Bolsonaro foi percebido não havia mais como recuperar o tempo perdido. Do ponto de vista político errou ao praticamente parar a campanha por quase uma semana após o primeiro turno buscando apoios onde não acharia nada, como de fato não achou.

Mas o fator de maior peso, o que define o que é o PT e o seu campo, toma as ruas em todo país: a militância. Mesmo sem orientações políticas claras, sem material oficial de campanha, sem muita articulação dos comitês oficiais e sem a interferência maciça da internet, Haddad ganha 16 milhões de votos entre o primeiro e segundo turnos. Um crescimento de quase 50%. A campanha ganha as ruas, o Vira Voto se torna mania nacional. A campanha de Bolsonaro, que esteve perto de ganhar no primeiro turno, perde o ímpeto. Há quem avalie que se a campanha durasse mais uma semana Haddad teria vencido.

Não foi uma luta de Davi contra Golias, longe disso. Foi uma luta onde cada lado utilizou as melhores armas que dispunha. Mas um lado estava melhor preparado e com uma leitura da conjuntura e do estágio da luta de classes mais precisa que o outro.

Para o esboço de uma política

Ainda antes do primeiro turno havia muita discussão em grupos de ativistas digitais no WhatsApp e em outros aplicativos sobre como poderiam ajudar na campanha. Logo após o fim do primeiro turno alguns desses ativistas se reuniram para discutir a construção de alguma reação coletiva nas redes à campanha de Bolsonaro. A Casa das Redes surge dessas discussões. O grupo reuniu pessoas de várias especialidades da comunicação: jornalistas, fotógrafos, editores de vídeo, TI, etc. A ideia era reunir uma equipe para pensar conteúdos, produzi-los e distribuí-los. O quartel general foi em uma casa emprestada e funcionou até o fim do segundo turno. Na composição política desse grupo havia militantes de vários partidos de esquerda, sem partido e dos movimentos sociais. Não havia qualquer conexão formal com a campanha, era uma iniciativa dos ativistas.

A Casa funcionou entre 13 e 28 de outubro. Nesse período, utilizando a plataforma Ativistas com Haddad, se formou uma rede de cerca de 57.000 militantes que passaram a ter acesso e distribuir o material produzido. Se cada uma dessas pessoas pode atingir outras 20, tínhamos um potencial teórico de alcançar mais de um milhão de pessoas.

Resumo da experiência:

· Atuação por 15 dias, entre 13 e 28 de outubro

· 70 voluntários se dividem em 4 frentes

  • o Produção de conteúdo: vídeos, memes, áudios, textos, etc.
  • o Distribuição: definir e operar a infraestrutura de TI de distribuição do conteúdo produzido
  • o Análise de dados: analisar dados e pesquisas
  • o Articulação: articulador entre os grupos e com o mundo externo

· Diálogo com várias entidades, ativistas e partidos

· Atuar em duas frentes: desconstrução de Bolsonaro e das suas fakenews e apresentação da chapa Haddad/Manuela

· Integração com grupos como Vira Voto, Mídia Ninja, Cineastas pela Democracia, etc.

O primeiro movimento foi tentar, usando o WhatsApp, entrar nos grupos bolsonarianos ou não e publicar os conteúdos produzidos. Isso foi descartado pelas dificuldades técnicas, do custo e pela baixa efetividade em função do fanatismo existente nos grupos de Bolsonaro. Também por que o grupo de reduziu e se estabilizou entre 10 e 15 pessoas efetivamente ativas.

Diante dessa realidade o site Ativistas com Haddad usou como base tecnológica o Action Center. Produto desenvolvido com a plataforma de construção de comunidades de ativismo digital Nation Builder, plataforma de software usada em diversas campanhas ao redor do mundo, entre elas o Brexit, as companhas de Trump nosEstados Unidos e a de Macron na França. O princípio dela é a construção de sites que se articulam em arranjos hierárquicos ou não, formando grandes redes articuladas com a capacidade de reunir e fazer a gestão de conteúdo de milhões de usuários: as Nações.

O Action Center é um site para incentivar e manter o ativismo permanentemente. O princípio é a proposições de ações, diárias ou semanais, com material ou orientações que suportem essas ações. Os Ativistas precisam se registrar no site. É possível compartilhar informações com o Facebook e o Twitter.

Nos dois primeiros dias, sem divulgação, eram 10.000 usuários. Com a divulgação pelos sites da campanha de Haddad chega a 57.000 usuários.

Resumo da experiência:

· 57.000 pessoas cadastradas e 200.000 acessos

· Estabilizou em 6.000 acessos diários na última semana.

· Fonte de conteúdo sério e confiável, oferecendo os argumentos que as pessoas precisavam

· Desativada duas semanas depois do segundo turno.

O uso dessa plataforma Ativistas aponta um caminho. A experiência mostrou que é possível a criação de uma rede que articule militantes e não militantes onde é possível a rápida disseminação de conteúdos e informações, independente das redes comerciais, como Facebook e WhatsApp. Com instruções e material de divulgação adequados os Ativistas podem interagir com suas bases sociais, família, vizinhos, colegas, amigos e em todos os grupos que participa, sejam grupos na internet ou presenciais, levando a política do partido. Isso seria gerar uma forte interação entre a militância nas redes e nas ruas, fazendo com que uma complemente a alimente a outra.

Nosso 7º Congresso precisa enfrentar com seriedade a questão da comunicação!!!

Luiz Sérgio Canário, Militante do DZ Pinheiros, São Paulo-SP

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